
Neste prolongado Verão de S. Martinho*1 que vamos vivendo, o sempre empenhado, razoavelmente bem documentado e nada escutado Opinante foi-se a Belém e mais aos Paços do seu Palácio. Segundo a sua empenhada, razoavelmente bem documentada e nada escutada fonte e mais a dum enorme cartaz plastificado, preto e ao pendurão do muro da frontaria, este estaria aberto aos passos do mais comum dos mortais e demais turistas para visitar os seus jardins e apreciar as obras de arte especialmente lá instaladas, e para tomar um cafezinho na Sala das Bicas e provar as, sei lá, compotas da Maria*2, no âmbito do programa dos Jardins Abertos*3.
Cauteloso, o Comichoso foi-se primeiro à pesquisa virtual e deparou-se logo com a aridez da Página Oficial da Presidência da República Portuguesa*4, na qual, aliás, nada consta dos ditos Jardins Abertos*4 nem da necessidade de se marcar previamente*5 a tal visita real que será obrigatoriamente guiada.
Curiosamente, logo abaixo na consulta da Internet, está a página do prévio locatário do Palácio*6, onde constam as mesmíssimas e pobres fotografias, desta feita numa alindada cercadura esbatida que, ainda assim, em nada acrescentam à nossa tão almejada visita.
Gorada a incursão na excursão pela omissa marcação, pelo tal muro da frontaria nos quedámos, à boca da rampa do Pátio dos Bichos*7, qual boi, mirando a Guarda Presidencial das guaritas ambas, impecável naquele capacete ideal para abanar no mosh pit de qualquer evento de rock'n'roll que infelizmente nunca terá lugar na Sala Dourada*8. Ah! e aproveitando para reparar que as laranjinhas do renque cimeiro do muro palaciano caem desamparadas na calçada, sem que ninguém lhes acuda (nem para a compota da Maria) e deixando no pavimento aquilo que parece os restos dum farnel funesto.
Fomo-nos dali, meio agastados então, em direcção ao ponto turístico mais próximo que não o da Única Fábrica dos Pastéis de Belém e que lhe fica por trás: o Jardim-Museu Agrícola Tropical.
Estando aquilo ao cargo do Instituto de Investigação Científica Tropical, segundo reza o ingresso para o qual desembolsámos 1,5 euros (idosos 0,75), deambulámos à sombra de palmeiras, bambus e seringueiros e muitas mais "colecções de plantas de origem tropical e subtropical, com interesse científico ou económico, algumas ameaçadas de extinção". Muitas das quais, aliás, cujas designações se nos escaparam por entre as placas identificativas meio tombadas. Alguns exemplares de espécie avícola comum e nada tropical, prósperos também à custa do pão da vizinhança, cruzaram patinhando a nossa digressão, felizes e ignorantes dos altos e baixos desígnios humanos.
Grande é o desmazelo geral, e o antigo esplendor colonial que lá se vislumbra, em estufas rachadas e painéis de azulejaria entrementes conspurcada, estará para ser restaurado, a julgar pelo número de placas "em obras" e "vedado ao público" que contracenam e excedem as que informam a proveniência das espécies vegetativas, mas, ao que se lê na placa plantada de estaca à entrada, desde 2005 que pouco ou nada se lá faz*9...
Quis o destino que as traseiras do Palácio de Belém de lá se avistassem, bem como as da única Fábrica dos Pastéis de Belém, mas mal se expressa a vontade de tirar de longe uma fotografia dum exemplar plástico (do Cabrita Reis?), logo aparece um agente da autoridade (ali de plantão para o efeito?), a afirmar que tal não é permitido.
Não obstante a visível decadência, este jardim botânico merece muito uma visita, quanto mais não seja para escapar à algazarra da Única Fábrica logo defronte, à lufa-lufa gótica super-exposta e híper-fotografada logo adjacente e ao mega-difícil acesso à Mariani II.
Ah, e ó Maria, ó Aníbal! apanhem lá as laranjinhas!
*1 Um Verão de S. Martão?
*2 Ou lá como se chama aquilo
*3 Ou ir à cozinha cheirar o teu bacalhau, Maria
*4 http://www.presidencia.pt/?idc=15
*5 Tel.: (+351) 213614660
*6 http://jorgesampaio.arquivo.presidencia.pt/...
*7 http://www.presidencia.pt/...
*8 http://www.presidencia.pt/...
*9 Inexplicável, também, é o número de correntes e cadeados da Loja do Chinês® a aferrolhar portões
O quiosque de bairro é uma peça de mobiliário urbano crucial. Apraz-me por lá passar e ver nos jornais o que vai pelo mundo, mas gosto de o fazer a correr e de soslaio, não se me vá quedar demasiado impressa na mente a sangria desatada que quase sempre faz a mancha das manchetes em escaparate. A sangria, prefiro-a mais atada, amordaçada e com muito gelo, a acompanhar o chouriço de sangue que os noticiários da TV vão servindo.
Mas, mesmo espreitado a correr e de soslaio, há parangonas e cabeçalhos que pintam tremendas imagens garrafais. Perseguem-me sem dó: - C’um cabeçalho, pá, anda uma parangona mal explicada e furiosa atrás de ti! – ou até: – Está uma parangona à porta, pá, com um cabeçalho ao colo. Olha, vai lá que ela diz que é teu!
E eu sem escapatória do escaparate… Depois, geralmente já no café, leio as notícias mais ao pormenor e com mais calma.
Foi assim que, após a dose matinal de cafeína e no jornal da casa, o título que vislumbrara lá fora “Bica vale multa de um milhão à Nestlé” começou a fazer algum sentido.
Pelo que entendi, a Autoridade da Concorrência condenou a multinacional Nestlé a pagar uma coima milionária por ter sido considerada culpada de celebrar contratos de fornecimento dos cafés da marca Buondi que em muito condicionavam a liberdade de escolha dos clientes do ramo hoteleiro.
Fiquei chocado, pá!
Então a nossa rica Nestlé, fundada em 1843 por Henri Nestlé em Vevey, Suíça, e trazida em 1933 para Avanca, Portugal, pelo Prof. Egas Moniz, anda a condicionar a liberdade de escolha da malta, pá?!
Grande novidade, pá, pois se há anos que a Nestlé da Cerelac, a Nestlé do Nestum, a Nestlé do Nescafé anda a comprar tudo! Aliás, segundo o site oficial da Nestlé Portugal (por sinal bem foleiro e em azul-bebé) a dita multinacional goza também do pomposo subtítulo “Empresa Mundial de Alimentação, Saúde e Bem-Estar” e “pensa de uma só vez em todos nós, em todos os estágios da vida”.
Partindo do princípio de que nós somos aquilo que comemos, é inegável a influência que a Nestlé exerceu e continua a exercer sobre a comunidade portuguesa e muitos são os que se lembram com saudade das farinhas lácteas da infância ou do concurso fotográfico dos anos 50, “Bebé Nestlé”, que elegia os bebés mais bonitos da nação.
Inegável, também, é o apetite com que a Nestlé absorve os produtos locais* e enorme é também o peso que representa na balança económica mundial.
Já na balança doméstica, cabe a cada um controlar o tamanho que este passarão possa atingir neste ninho à beira-mar plantado.
E dei por mim a voltar ao quiosque, onde comprei um chocolate Regina.
Que, por sua vez, foi adquirida pela Imperial***.
Que, por sua vez, faz parte do Grupo RAR
Que, por sua vez, salvo erro, foi quem trouxe os cafés Buondi para Portugal...
*Os After Eight, por exemplo, já não são da inglesa Rowntree. A embalagem está mais foleira e aqueles quadrados fininhos de chocolate amargo com recheio de hortelã já não sabem ao mesmo.
**Ao que parece, foi um pequeno estabelecimento do ramo hoteleiro da zona da Expo que teve a distinta lata de fazer frente ao gigante multinacional.
***A Imperial, de Vila do Conde, é responsável pelos Bom-Bokas e Pintarolas.
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
Na moderna decoração de interiores, nada há de mais odioso do que o acabamento brilhante. Desde os anos oitenta que está na moda dar a quase tudo o que é superfície aquele polimento espelhado que empresta aos materiais mais nobres e mais modestos um ar molhado e lambido. Tudo o que é superfície passa a rebater a luz, ofuscante e cansativamente. Não se pode ir a lado nenhum sem se ser assaltado pela cacofonia policromática dos materiais e objectos que nos rodeiam. Todo o espectro de cores nos agride, aos berros, a exigir-nos a nossa atenção:
É o polimento brilhantina.
A pedra que a tal abuso mais tem sido sujeita é o granito. Não há lugar que não o tenha, sítio que não o exiba – desde o balcão do banco à bancada do tasco, desde o pavimento do palacete ao chão do lavabo público.
O granito não aguenta bem o polimento. Torna-se pimpão; um pimpolho que incomoda o olho. Fica fatela até mais não, nem bonito nem funcional, um pacóvio armado em fidalgo – o gel wet look das pedras.
O granito polido é o mais azeiteiro dos materiais decorativos. Ainda por cima, há-os em todos os cambiantes: desde o cinzentão mais tristão ao verdete mais alegrete; desde o pardo mais parvo ao rosado mais animado. Este último será o mais perverso do espectro de cores mineralógico, mais parecendo a representação petrificada duma dose de feijão-frade vomitada.
Desde meados dos finais do séc. XX, com o desordenado e desenfreado crescimento oitentista que a construção civil sofreu e com a subsequente proliferação de arquitectos decoradores que daí resultou, que este material de revestimento decorativo nos vem poluindo e ofuscando as vistas, especialmente pela particular qualidade que tem de se imiscuir nos cafés e tabernas do nosso quotidiano, espelhando até à náusea a luminária embutida na álgida brancura ornamental do tecto falso em pladur.
Mesmo que nos descambe o olhar para o soalho flutuante, não temos descanso e não há onde repousar a vista no meio do mostruário de materiais que passa pela decoração de interiores moderna. É infernal o barulho das luzes, reflectidas e refractadas em tantas superfícies lambidas, tantos espelhos biselados, fumados e com o estanho estalado de fábrica e que, por sua vez, rebatem essa mesmíssima luz estafada e ricocheteada em outros tantos mosaicos vidrados e com padrões em baixo-relevo, e depois no-la devolvem no espelhado lambido da superfície interminável do balcão frigorífico.
Mais que um vómito, toda esta panóplia decorativa é um bom vomitório, sobretudo quando dá forma àquele mictório indiviso, de cisterna aberta e despudorada. O granito polido é gregário e ideal para se ir ao gregório.
E depois, não contente com poluir os interiores, toca de saltar cá para fora e 'bora lá cobrir tudo o que é pilar e pilarete, arco e arcada, frente e fachada.
Como é que uma pedra tão nobre, tão cheiinha de quartzo, feldspato e mica e que serviu para edificar castelos e monumentos se presta a estas coisas?
É preciso, note-se, que primeiro cheguem todos a acordo quanto ao deixar-se exibir nestes preparos. Cá para mim, a culpa é do Quartzo. Armado em novo-rico, convenceu o Feldspato, que caiu que nem um feldspatinho e conseguiu a adesão da Mica, que é uma maria vai com todas.
E também, ignomínia suprema, já invadiu os cemitérios, cobrindo campas e mausoléus, transformando os locais de culto numa feira de vaidades em que o eterno descanso parece impossível.
Quando chegar a minha hora e eu for a enterrar, lancem meus restos mortais no aterro municipal (no contentor de reciclagem apropriado*) cubram-me de betão, atirem-me para a vala comum a céu aberto mas não me revistam de granito polido.
* contentor de reciclagem apropriado – o panteão?
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.

Mas afinal que é feito do estilo do século XXI? O que é que define a estética presente? Onde pára o dizaine* dos nossos dias?
Cada década do século passado foi marcada por linhas duras e bem definidas: todas tinham estilo próprio e reconhecível – e recuperável para o eterno retró*. Ainda não nos definimos esteticamente, ainda não nos despegámos do saudosismo de outras eras, talvez por estarmos a atravessar os anos 00, e a transpor um novo século e um novo milénio.
É curioso que, por causa da importância dada ao milénio – que até deu nome a instituições bancárias precárias e a centros comerciais banais, nos tenhamos esquecido do século e, mais grave até, da década.
Posto isto, e sendo o veículo automóvel dos mais típicos símbolos que a civilização moderna tem para a definir, é incongruente que os modelos actuais deixem tanto a desejar: os fabricantes copiam sem pudor, furiosa e reciprocamente os desenhos da concorrência, e o carro moderno é uma coisa indefinida – uma carripana de linhas lambidas e sem estilo nenhum.
Se compararmos, por exemplo o desenho do Volkswagen Golf de 1975, saído da prancheta de Pininfarina – esse, o da Ferrari – e considerado o percursor do cinco portas moderno, constatamos que o primeiro era todo ele linhas elegantes e bem vincadas e que já o seu homónimo contemporâneo é balorfo*. As arestas do original foram boleadas, embotadas, amolecidas e, se o foi a bem da aerodinâmica, foi-o a mal da dinâmica estética, que se perdeu.
O carro moderno é um escarro. Os modelos das marcas são todos iguais entre si. É por isso que, uma vez estacionado, não nos lembra onde o deixámos.
A arquitectura também não encontrou ainda uma expressão que defina o estilo do novo milénio, século e década e, embora abuse das linhas rectas, talvez na esperança de que as paralelas se venham a encontrar numa identidade própria. Alicerça-se ainda num pós-modernismo estafado – que de moderno já nem pó – privilegia o novo-riquismo, num exercício de estiluda* algidez e cujo resultado nem é funcional nem bonito. Fere-nos a vista, ao insistir até à exaustão na aresta viva e, no caso do mobiliário urbano, fere-nos também o traseiro. Quantos rabos, quantas bundas, quantos pandeiros, quantas bimbas se terão de sentar nos blocos de granito que passam por bancos de jardim até que as arestas destes se tornem boleadas e aprazíveis? Quantas nalgas de jovens namorados e quantos beijos de língua estufada*? Quantas nádegas da terceira idade e às custas de quantos torneios da sueca e do dominó?
E eu que na minha infância devorava o Júlio Verne, a colecção de ficção científica Argonauta, folheava a revista do ACP* e o jornal Motor, cuidava que a urbe da minha maturidade estaria pejada de fantásticos veículos, no mínimo voadores, e de formidáveis edifícios e arranha-céus, no mínimo avassaladores. Seria assim uma espécie de Metropolis de Fritz Lang, cruzada do Mon Oncle de Tati.
Afinal, o cenário da versão actual é um mamarracho espraiado, assim meio balorfo, como a versão oitentista* deste filme, restaurada e a cores, com música de Giorgio Moroder.
Safa-se esta última, sei lá. Muito na moda. Muito retró.
Para definir o estilo dos anos 00, sugiro carros com arestas e edifícios sem elas.
* dizaine – e não dézaine
* retró – de retrógrado – e não retrô
* balorfo – balofo e amorfo
* estiluda – estilosa e esquinuda
* língua estufada – dito de António Pessa
* Automóvel Clube de Portugal
* Dos anos oitenta do séc. xx
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
Quando parte do país ainda mantém a tabuleta do “encerrado para descanso do pessoal”, a gente quer é não pensar em nada que não seja, finalmente, gozar as merecidas férias. Há ainda o constante vaivém de gente que parte para férias e de gente que chega das mesmas. A malta que já gozou as merecidas férias quer é pensar nelas com saudade e os que ainda as não tiveram querem é pensar nelas com antecipação.
Para os pobres diabos que decidiram gozar férias cá dentro, fica a velha questão que dividia tematicamente as redacções da escola primária: praia ou campo? Litoral ou interior?
Hoje em dia, esta questão está muito simplificada pelos nossos dirigentes que agora nos empurram para a praia enquanto procedem à limpeza do campo com queimadas.
Tanta tinta correu já sobre os incêndios que devoraram matagal, casas e pessoas algures no interior do país, que pouco ou nada resta dizer sobre esta nossa nova calamidade que já se tornou sazonal. Ao longo dos dois últimos meses, não houve noticiário que não tenha tido o seu painel de fundo por trás do jornalista de serviço, com imagens do que foi lavrando, de bombeiros e população, afogueados na luta desigual contra as chamas implacáveis. É de louvar esse herói, que é o bombeiro voluntário que se lança à luta armado com pouco mais que um galho de eucalipto e um balde de plástico. Triste é que as lágrimas que Portugal chora não apaguem o fogo que o consome.
É uma chatice que haja esta porcaria dos incêndios para nos chamuscar o juízo, pá, mas felizmente o Governo já nos tranquilizou com a afirmação de que não nos faltam meios de combate aos fogos e que está a decorrer um estudo sobre a situação. Ficamos mais tranquilos e nós, os que não fomos ainda, já podemos partir para férias um pouco mais descansados, sabendo que os que já pegaram ao serviço estão em cima da situação.
Mas para aqueles que, como eu, só planeiam as férias à última da hora e que gostam de partir à aventura ainda nos resta saber o que meter na bagagem: bronzeador ou extintor?
Possíveis soluções futuras para os incêndios florestais:
A construção de vários TGVs, Otas, auto-estradas e campos de campos de futebol na área de pinhal e eucaliptal ardidos.
Relançar a moda do mobiliário chamuscado.
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
A banda comemora 20 anos de carreira e o Líder discorre sobre a Europa – um ano depois do lançamento do visionário álbum Eurovisão.
Pelo menos duas datas importantes completam agora 20 anos: a adesão de Portugal à UE (União Europeia), que na altura se chamava CEE (Comunidade Económica Europeia) e o aparecimento do Imposto do Valor Acrescentado (IVA).
A CEE era catita porque ia dar subsídios à malta. Era vantajoso ser-se Estado-membro e até houve uns gajos tão desejosos da adesão que fizeram uma música sobre o assunto…*
A grande ideia era que a malta só tinha de preencher uns impressos em nome duma empresa qualquer (sei lá, tipo Portugal S.A.*) e os gajos davam subsídios à malta para serem aplicados no melhoramento da tal firma ou empresa. A ideia era porreira porque os gajos de Bruxelas não iam fiscalizar nada – por exemplo se a dita firma ou empresa existia mesmo – porque entretanto tinham fundado a Benelux S.A. e iam deixar a fiscalização a cargo dos gajos de Lisboa, da Lisboalux S.A.R.L., que prometiam não interferir muito, e a malta ia receber o dinheiro e depois ia aplicá-lo num melhoramento realmente importante: o das nossas ricas vidinhas.
A malta precisava era de casas, de carros e de auto-estradas.
Ó pá e depois a malta acertava contas...
O IVA, que só entraria em vigor em 86, cá para a malta, não era assim uma tão grande ideia, mas a malta já fazia parte da CEE e tinha de aderir...
A grande ideia era que toda a malta ia pagar uma taxa variável consoante o critério dos diferentes Governos sobre os bens de consumo adquiridos, beneficiando de compensações se a malta preenchesse uns impressos em nome duma empresa qualquer (sei lá, tipo Mexilhão S.A.). Quem acabaria por arcar com a despesa final era o mexilhão do costume, enriquecendo assim a sempre faminta barriga estatal (Tubarão S.A.).
Pelo que se tem presenciado a UE não está nada unida. E a fractura ideológica deve-se sobretudo ao desentendimento quanto ao pagamento da factura final.
É muito triste chegarmos à conclusão de que a Portugal S.A. fez mal as contas e de que afinal a malta vai ter de pagar as casas, os carros e as auto-estradas à Benelux S. A. e ainda por cima com o IVA a 21%. O buraco do défice tapa-se abrindo um buraco ainda maior nos nossos pobres e remendados bolsos.
Resta-nos a vã consolação de saber que efemérides destas haverá muitas, seu palerma, só que agora a malta aprendeu a fazer contas!
* Se fosse agora, o refrão era assim: “Quero ve-e-er Portugal na UE, UE…”
* S.A. – Sociedade anónima
* S.A:R:L – Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
Sempre adorei as grandes superfícies. Não falo de vastas planícies ou campinas verdejantes. Sempre adorei tais oficinas da trivialidade, tais usinas do consumismo imediato e urgente, tais fábricas da vaidade urbana, entretanto recambiada para as fabriquetas dos subúrbios. É nos centros comerciais que essa mole pródiga é readmitida e reciclada em todo o seu esplendor.
Desde os tempos em que, em plena euforia económica oitentista, despontaram os primeiros "shoppings" – conceito norte-americano que nos chegou com as telenovelas que até deram nome a alguns (Ah! saudoso Dallas…) – sempre me atraiu o ajuntamento de gente que se ajunta sem outra razão senão a do simples prazer de se ajuntar, tendo o consumo por vago pretexto. E digo vago, pois o verdadeiro pretexto é ver-se e ser-se visto envergando a farpela de fim-de-semana (antigo traje domingueiro).
A função que os centros comerciais cumprem é muito antiga. Os romanos tinham o fórum; os gregos a ágora. Os ibéricos tinham o pelourinho. Não é tanto o factor comercial aquilo que chama as pessoas aos ditos centros. Vai-se lá às compras, mas vai-se lá mais por razões culturais. Os centros comerciais são os novos pelourinhos da aldeia global, onde as pessoas se ajuntam para o convívio. São os novos pelourinhos da cultura.
Confesso que gosto sobretudo dos centros comerciais com história, aqueles que sobreviveram às sucessivas crises de administração e governação e que mantém uma funcionalidade, afastada da original mas que perdura e evolui. Dou como exemplo o recém mui badalado Stop, que ganhou nova vida graças não ao comércio, mas sim à indústria. As mais de 40 bandas que lá compõem e ensaiam trouxeram nova vida a esta superfície e povoaram os pisos outrora desertos. Seria bom que os nossos governantes e autarcas dessem mais apoio à mais efémera e desamparada das artes. A que mais se mantém viva graças à carolice e amor à camisola. Abrir os centros comerciais à indústria musical é uma possível solução para os que se encontram em vias de extinção.
Acho que até sofro um bocado de agorafobia e sempre gostei destes espaços mais ou menos fechados em que se condiciona muito mais do que o ar, destes espaços em que circula toda uma cultura que ali é vivida, renovada e respirada. Uma cultura que podia ser muito mais musical.
E viva a agorafobia!
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
O cartaz que anunciava o Fantasporto 85 – 5º Festival Internacional de Cinema do Porto – não me sai da cabeça. Era hediondo. Em primeiro plano, via-se a carantonha duma criatura assim a modos que andrógina, amarelo-esverdeada, sobre fundo preto. Estava decididamente indecisa quanto ao estilo a encarnar. Era assim meio gótica… não, era pós-punk… ou antes, neo-romântica… Espera, já sei! Vanguardista! É isso. Era vang e lembrava a irmã do gajo dos Classix Nouveau – o Steve Strange. Tinha a cabeça rapada, com uns triângulos a orbitarem a cabeça, e usava um batom às riscas amarelas e pretas, num sinal de aviso que parecia dizer: Perigo! Herpes labial! Assemelhava-se a um zombie estiloso saído do punho dum ilustrador tarefeiro, ainda indeciso entre cursar a ESBAP* e o CITEX* e que devia ter uma mãe que alternava entre a profissão de cabeleireira/manicura, toda pr'afrentex; encorajadora. Os triângulos orbitais talvez representassem madeixas/aparas de unhas e foram com certeza sugeridos por ela.
Este cartaz de má morte está assim vivo na minha memória porque fora afixado no quiosque do Café Luso, mesmo defronte da minha mesa habitual. O Luso era amplo, servia príncipes* muito bem tirados, umas francesinhas* memoráveis e ficava aberto até às duas. Era frequentado por uma fauna mui variada, que ia desde as tribos urbanas aos fregueses do bairro, desde as mulheres de "vida fácil" que atacavam na Praça Carlos Alberto às esposas dos autarcas com entradas de borla, desde o pessoal das Belas Artes e do Teatro aos intelectuais com lugar cativo no Fantasporto. Durante o festival, andavam num constante rodopio entre o Cine Teatro Carlos Alberto, o Cinema Lumiére e o Café Luso. Sem Luso não havia Fantas*.
O cartaz do Fantas de 85 anunciava, entre outros filmes, "A Companhia dos Lobos", de Neil Jordan, uma história do Capuchinho Vermelho em que o gajo que fazia o papel de Lobo Mau ostentava umas sobrancelhas espessas que se juntavam numa só. Curiosamente, a criatura amarelo-esverdeada tinha os globos oculares muito vermelhuscos mas de sobrancelhas, nada…
Verdade seja dita, desde que o Luso fechou que não vou ao Fantasporto. Sem Luso não há Fantas. Nem sequer conheço o novo Carlos Alberto, embora tenha passado por lá quando o arrasaram e o recinto mais parecia o cenário para um filme fantástico. Sei lá, um filme de estilistas zombies com icterícia perniciosa…
* ESBAP – Escola Superior de Belas Artes do Porto
* CITEX – Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil
* Príncipe – Copo de cerveja de 30cl
* Francesinha – Quem não conhece? Combinado de carnes frias e quentes, coberto de queijo derretido e regado c/ molho picante.
* Não me refiro, obviamente, nem às águas minerais nem à laranjada.
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
Se sempre foi difícil um gajo arranjar sapatos decentes, agora está impossível. Nas montras e, consequentemente, nos chispes dos artolas só se vê Sapatolas – filhos bastardos do bico-de-pato quadradão dos anos 70 – que, desde os anos 90, recheiam as sapatarias e revestem os butes da grande maioria da rapaziada. É que não se vê mais nada!
Isto para não falar das Bicancas que as gajas usam – mas essas não têm desculpa, pois as mulheres sempre tiveram mais escolha* no calçado.
Nos anos oitenta, era um pouco mais fácil. Havia mais variedade de modelos clássicos masculinos. Até se arranjavam uns creepers de sola grossa de Ceilão, graças aos sucessivos revivalismos que proliferaram nesta década. Dependendo da tribo a que um gajo pertencia, havia sempre os Doc Martens* em todas as suas vertentes. Para os mais desportivos, recomendava-se as Converse All Stars do Chuck Taylor* em inúmeras cores, embora só as brancas q. m. s. m.* fossem aceitáveis. Os Ramones que o dissessem.
A moda sempre viveu do revivalismo. Sempre se alimentou do próprio corpo, como uma pescadinha-de-rabo-na-boca feita de trapos. O problema é que raramente não despreza o original. As grandes marcas que ainda fabricam os modelos clássicos urbanos não resistem a entregar aquilo ao estilista de serviço que, geralmente, se está a borrifar para destruir um mito de gerações. Coloca lá o seu cunho pessoal, tornando-o quase irreconhecível. Eu acho que os estilistas e dizainas* de moda fazem de propósito para apalhaçar os clássicos. E devem-se desmanchar a rir quando vêem as pessoas com aquelas chanatas nos penantes.
Ainda assim, acho mais piada às interpretações da candonga feirante, que também tem dizainas, e que lança os seus Reboques, Naikes, Dr. Martinez, Conversa Altares, e as inevitáveis Andidas.
Já para os casalinhos que ainda dançam agarradinhos, aquilo até deve dar jeito – a Bicanca encaixa bem na Sapatola – mas também quem é que ainda dança agarradinho? Só se for agarradinho à pastilha.
Eu queria era uns moccassins* urbanos, sólidos, decentes, de grossa sola de borracha, mas aí estou descalço, pois a Doc Martens já não fabrica os loafers*, muito usados pelos revivalistas do ska (Specials, Madness), e os creepers, só importados. Recuso-me a usar sapatos de vela em terra e os Yuccas* são para os yeques*.
Os sapatos têm cara e dizem muito da personalidade de quem os calça.
Eu ainda faço um esforço, estóico, impassível de cara, e experimento "aqueles ali na montra, de sola de borracha, s.f.f."…
Mas depois tenho de dar razão aos estilistas e dizainas.
Quando olho para os pés, desmancho-me a rir.
* "as mulheres sempre tiveram mais escolha." - até há umas Bicancas ao estilo das All Stars!
* creepers – muito usados pelos rockabillies
* Doc Martens – a sola acolchoada a ar, inventada pelo Dr. Maertens, médico alemão, e adquirida pela família inglesa Grigg, em 58
* Converse All Stars – botas de basquetebol que já venderam mais de 500 exemplares desde 1917
* Chuck Taylor – n. 24/06/1901, m. 23/06/1969, foi vendedor ambulante da Converse e deu nome ao modelo
* moccassins – calçado ameríndio
* loafers – moccassins colegiais, com e sem berloques, de origem inglesa e adoptados pelos americanos
* dizainas – e não dézainas
* q.m.s.m – quanto mais sujas melhor
* Yucca – modelo de fabrico nacional para o mercado americano
* yeques – queques yuppies
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
Há 20 anos, ela era uma prima bastante pontual, que chegava aí por volta do dia 21 de Março.
Vinha lá da terra dela, ninguém sabe bem qual; dizia-se que era lá para os lados da Parvónia. Ninguém sabia como viajava, mas eu desconfiava que fosse de comboio e que a prima saía numa estação misteriosa, do género do Entroncamento.
Acabava por chegar de surpresa, sem avisar a hora de chegada por SMS ou Messenger, embora tivesse mandado à frente alguns pequenos sinais que se iam insinuando na nossa percepção embotada de urbanos mundanos mais ou menos depressivos. Ninguém se apercebia muito da sua chegada e continuavam a ir às suas vidas, como se nada fosse. Não era assunto de noticiário, mas todos sabiam que chegara e todos se comportavam de modo enigmático. Andavam estranhamente animados, de costas mais erguidas, com o passo mais leve e estugado, e até – ó calamidade! – se atreviam a sorrir.
De súbito, estava lá.
Era uma criatura estranha, a prima Vera, cheia de contradições. Era discreta, mas espalhafatosa, humilde mas pomposa, com os seus modos desempenados e desabridos de moçoila da província que até causavam algum embaraço à gente da cidade. Lembro-me que se vestia muito mal, às três pancadas, de cores berrantes, e até à distância se lhe adivinhava a presença. Sobretudo pelo cheiro. Era assim uma fragrância urbano-incomodativa; entre o conhecido e o dificilmente adjectivado, entre o acre e o doce, entre o áspero e o enjoativo, entre o rude e o sofisticado, entre o pão acabado de cozer e a relva acabada de cortar. Nunca ninguém soube descrever precisamente as suas qualidades organolépticas, muito embora se tenham escrito volumes enciclopédicos sobre o assunto.
Todos lhe chamavam simplesmente cheirinho.
Hoje em dia, nem sei se a prima vai chegar e duvido que seja pontual. Não sei o que é feito dela. Desapareceu sem deixar o número do telemóvel ou o endereço de e-mail. Foi-se a prima e mais o cheirinho. Já era, a Vera.
Espero que Março cheire bem. Pode ser que a prima Vera lance uma marca de perfumes com o seu nome, como agora está a dar.
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
É tremenda a ignorância que os urbanistas nacionais têm quanto à capacidade da bexiga dos pobres munícipes que representam. E é tremendo também que, já com a dita a rebentar, estes últimos tenham de acorrer aos cafés e restaurantes para utilizar os lavabos, o que pressupõe pedir-se licença e chave, e fazer despesa. Há estabelecimentos, inclusive, que afixam na porta o eterno dístico “avariado”, para afastar utilização abusiva/indesejável…
Mas afinal o que é que se espera de nós? Que aguentemos heroicamente até chegarmos a casa ou então que nos aliviemos num recanto qualquer? E que pensarão de nós os turistas, habituados a que tal equipamento básico exista em relativa profusão nas suas cidades? Para estes, a opção de aguentarem até chegar a casa não é opção…
Com os projectos da chamada requalificação urbana, os lavabos públicos, já de si escassos e quase todos provenientes de outras eras, estão a desaparecer a olhos vistos. Falo dos saudosos lavabos públicos, aqueles que, em praças e jardins, tinham direito a funcionário/a e que, cada vez mais ultimamente, se encontram permanentemente encerrados.
De cada vez que há obras de requalificação, lá se vai mais um e o mais extraordinário é não haver qualificação neste sentido: os que se vão não são substituídos.
Nos finais dos anos oitenta e princípios de noventa, ainda se notou nas urbes alguma implantação dumas cabinas, salvo erro de desenho francês, onde o utente, mediante o pagamento de 20$00, podia fazer as necessidades e ainda lavar as mãos. Tão misteriosamente como apareceram, levaram sumiço. Terão, retornado a França?
No Porto há uns mictórios, que aparentam ser dos finais do século XIX, e que são verdadeiras obras-primas do design de urinóis. São em ferro, com ornamentos rendilhados e cobertura em pagode.
Conheço pelo menos dois ainda operacionais. Um fica perto do Clube Fluvial e é, em princípio, para um só utente, com entrada lateral por ambos os lados. O outro situa-se na R. do Heroísmo, com entrada dupla, em espiral, e serve dois utentes que se defrontam durante o acto.
Este brilhante exemplo de equipamento urbano, esteticamente aprazível e funcional, permite que dois se aliviem enquanto mantém alegre convívio ou amena cavaqueira* e o seu desenho devia ser actualizado, melhorado, reproduzido e implantado em todas as esquinas.
O modelo em espiral, até, com ligeira adaptação, poderia existir em versão feminina, pois como é do conhecimento geral, as mulheres quando vão, vão aos pares.
A versão ideal, para mim, teria um caixa Multibanco acoplado e som ambiente, de preferência o de cascatas ou de melodias assobiadas e, já agora, com um pequeno esforço, não seria apenas mictório mas poderia ser também latrina, daquelas que ainda existem em alguns apeadeiros da CP…
É pena que este equipamento não seja sobre rodas, que não seja mesmo “mobiliário urbano”, como muitas vezes é, erradamente, designado. A mim, fazia-me um jeitão poder andar com um pagode destes atrás.
Sobretudo é de lamentar que já não seja reconhecido como sendo de utilidade pública. Aliás, necessidade.
* Cumprindo o ditado popular: Quando mija um português…
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.
20 anos de carreira. 20 vezes 365 dias de correrias. 20 vezes 365 dias de 24 horas de canseiras. 20 vezes 365 dias de 24 horas de 60 minutos de chatices. 20 vezes 365 dias de 24 horas de 60 minutos de 60 segundos de carolice…
20 anos de cigarros. 20 vezes 365 dias de cigarros. 20 vezes 365 dias de 24 horas de cigarros. 20 vezes 365 dias de 24 horas de 60 minutos de cigarros. 20 vezes 365 dias de 24 horas de 60 minutos de 60 segundos de cigarros...
E tudo isto para quê? Para obter um dos mais ingratos, ilusórios e inexplicáveis três minutos de prazer do mundo: os da duração duma canção pop.
O Oscar Wilde disse que o cigarro era o maior prazer que a sociedade moderna nos teria para oferecer; arde por escassos minutos e acaba, deixando-nos perfeitamente insatisfeitos.
A canção, quando é boa, é assim: deixa-nos perfeitamente insatisfeitos; quando é óptima, deixa-nos insatisfeitos e com vontade de tornar a ouvi-la; quando é excelente, deixa-nos na sensação um vago ardor que nova audição poderá mitigar mas nunca satisfazer plenamente. Ao arder, deixa-nos ansiados e ainda mais perfeitamente insatisfeitos.
Uma boa canção é como uma boa cigarrada: estupidificantemente bestificante.
Como resolução para 2005, vou compor mais canções. E vou fumar as resoluções.
Um Bom Ano para todos!
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.

Lembro-me dos meados da década de 80. Lembro-me que a música era muito pesada.
Da noite, recordo sobretudo a fase de aquecimento.
As tribos urbanas eram muito mais díspares do que as de agora: raramente se misturavam, não ouviam a mesma música, não curtiam a mesma onda. O sportswear não se tinha generalizado. O pessoal cultivava um estilo de vestuário bem marcante, bastante ligado à música que curtia – que, tal como a moda, vinha muito lá de fora.
Como não havia telemóveis, as pessoas tinham pontos de encontro chave. Eram cafés, tascas e bares específicos onde as tribos se reuniam para beber uns copos e preparar o programa de incursão nocturna. A selecção destes locais de aquecimento era feita consoante o grupo a que se pertencia.
Havia aqueles onde só paravam os punks, os pós-punks, os skinheads (ou skins), os vanguardistas (ou vangs), os góticos, os roqueiros e os metaleiros. Os vangs dava-se mal com os punks, os góticos davam-se mal com os metaleiros, e os skins davam-se mal com toda a gente.
E depois havia a grande tribo dos híbridos que se dava com os membros das tribos atrás mencionadas e até com outros que, em Portugal e em número reduzido, não tinham reconhecimento nem tribo própria (como os cultores do rap, do techno e da house). Depois do aquecimento, os híbridos rumavam aos bares dançantes e discotecas que tinham os DJs mais esclarecidos que acabavam por aglutinar, pela música que passavam, um pouco de todos os estilos que as tribos cultivavam separadamente. Nestas casas nocturnas, costumava haver uma colecção de discos razoavelmente actualizada e até algumas cassetes – não havia Internet nem fazíamos downloads; a pirataria era feita em cassetes e o DJ (que ainda não atingira o estatuto de estrela de que agora goza) trazia uma braçada de discos da sua colecção particular para intercalar com os da dita casa.
Os CDs não tinham sido inventados, os discos eram de vinil e pesavam arrobas. Talvez por isso, por a música ser tão pesada, há 19 anos fazia-se uma selecção híbrida para os híbridos dançarem. Era a selecção natural e possível da noite urbana dos anos 80. Selecção essa que está muito em voga na mescla de estilos que se dança agora.
Na noite urbana actual pouca coisa mudou, excepto talvez o método de aquecimento.
E o peso da música.
Originalmente publicado na revista SearchMegazine.



